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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Tapa na Pantera!

Primeiramente gostaria de agradecer a todas as pessoas que estão lendo este post. Ele faz parte do início de um projeto que eu pretendo levar adiante a partir de agora. Que projeto é esse? Bem, sempre que leio algo inusitado, diferente ou que para mim pareça um absurdo tenho vontade de falar sobre o assunto com as pessoas, para ver quem concorda ou quem discorda. O puro prazer de dialogar e debater.

No entanto, até hoje, nunca tinha me passado pela cabeça que eu poderia fazer isso por meio de um blog. Na verdade, passar até passou, mas eu não acreditei que alguém fosse se interessar. Porém, vendo agora que ser blogueiro é profissão de muitos, resolvi adentrar no mundo dos blogs para dar a minha opinião sobre certas coisinhas que eu leio e vejo e que são absurdamente patéticas.

E a primeira delas foi tão inspiradora que deu nome ao blog. Trata-se de uma reportagem da Revista Veja (edição 2140, 25/11/2009), que comenta o tão aguardado tapa de redenção recebido pela personagem de Taís Araújo na trama das oito da Rede Globo, Viver a Vida.

Após ler o texto, fiquei me perguntando até quando as pessoas vão ficar se incomodando com tudo que se fala dos negros. No final da reportagem o jornalista relata que a secretária da CUT colocou no site da central sindical que a "Globo humilha negros no mês da consciência negra". No artigo, ela lembra da novela A Favorita, onde a mesma Taís Araújo era uma "desajustada e devassa", filha de um deputado corrupto e irmã de um alcoólatra. Concordo que foi uma péssima idéia da Globo fazer isso com uma família negra no horário nobre, tendo sido uma das poucas vezes em que uma família negra era retratada como bem-sucedida (sinceramente, só lembro de outra vez em que isso aconteceu, que foi na novela A Próxima Vítima).

Mas a concordância acaba exatamente aí.

Fico imaginando o diretor e o autor da novela pensando assim: "Vamos montar uma cena em que fique evidente a submissão e a hierarquia existentes entre brancos e negros. Faremos uma cena em que a Helena (negra) será humilhada pela Tereza (branca) com as piores palavras, acusando ela de só ter chegado onde chegou por fazer um aborto e finalizaremos da melhor maneira: com um tremendo tapa na cara". Fala sério!!!

Se eu conseguir imaginar essa cena, nunca mais assisto nada na televisão.

Será que sempre que acontece alguma coisa os negros estão sendo perseguidos? Fico impressionada com a capacidade que as pessoas tem de se ofender com tudo. Eu sou negra e não me senti perseguida em momento algum, muito menos humilhada.

Quantas vezes já vimos mulheres brancas que fizeram aborto nas novelas? Quantas vezes as mulheres brancas já levaram tapa na cara e até surras históricas? Quantas vezes as mulheres e homens brancos já foram alcoólatras? E mal caráteres? E prostitutas? E ladrões? Mas nada disso ofende. O que ofende mesmo é ser humilhado no mês de comemoração da consciência negra que, diga-se de passagem, muitos não sabem nem o que significa. Ficam apenas aguardando o feriado.

Só fico me perguntando de quem é essa consciência que precisa ser lembrada que é negra. Eu sou negra e lembro disso todo dia ao olhar no espelho e ver meus traços, típicos da minha raça. Se a Helena levou um tapa em novembro o problema é dela. Pra mim, tanto faz ser em novembro ou janeiro ou junho. Se ela foi humilhada o problema é dela.

E não me venha com esse papo de que o problema é de todos os negros! Meu não é. Eu não me ofendi e nem me ofenderei facilmente com uma cena que foi realizada num estúdio de televisão. Aliás, pra quem não sabe aquilo é só uma novela. Sabem o que é isso? As atrizes que participaram da cena não só toparam fazê-la como ganharam dinheiro pra isso (inclusive a negra que foi humilhada).

Gente, precisamos acabar com o estereótipo de negro coitadinho que alguns tentam pintar por aí. Se você é negro e tem orgulho dos seus cabelos cacheados, da sua pele escura e do seu nariz largo, assim como eu, tenha orgulho. E só. Não vamos ficar levantando bandeira sempre que um negro for destaque em alguma coisa, pois sempre vai haver um porém que vai nos impedir de comemorar 100% aquela vitória. E não é só porque era um negro. É porque a vida é assim mesmo. E é por isso que tem graça.

Sou negra com orgulho mas me recuso a comemorar a minha consciência. Eu a tenho e a mim isso basta.

2 comentários:

Orlando Miranda disse...

Eu posso ate vir aqui algumas vezes.. mas se nas proximas 2 postagens eu ler a palavra "novela", so me oferecendo $ mesmo.
Tu es inteligente... fala alguma coisa interessante ai.
Bjs

Marília disse...

Concordo em gênero, numero e grau com essa questão pé no saco de estereotipar as coisas.
Fui convidada para palestrar na semana da consciência negra... e lá falaram também algumas pessoas envolvidas com o movimento negro... e estas pessoas continuam repetindo bordões com os quais eu não concordo. Falar de negritude é falar muito mais do que a cor da pele... é falar de cultura... de história... e não de um tapa na cara de uma atriz que estava lá excercendo sua profissão... Também achei... MUITO BARULHO POR NADA.
AMEI O BLOG
BEIJOS