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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Ele precisa disso?

 Pra quem leu a Veja da semana passada acredito que não direi nada além do que os leitores da reportagem de capa já não tenham concluído com seus próprios pensamentos (e que pensamentos!). Pra quem não leu, inicio este post com a intrigante pergunta: ele precisa disso???

A idéia de fazer um filme sobre a vida do atual presidente (baseado no livro homônimo de Denise Paraná) é extremamente cabível: um homem humilde, nascido no interior de Pernambuco, com uma história e tanto de vida pra contar e que chega a presidência da República não é pra qualquer um. Depois de três derrotas nas urnas (uma contra Collor e duas contra FFHH), tendo sido o brasileiro que mais vezes candidatou-se à presidência, finalmente ele conseguiu se eleger.

Lula viu a mãe apanhar do pai, sofreu com o rigor deste último que formou uma segunda família com a prima da própria mãe. Trabalhou desde criança, só foi registrado por volta dos sete anos de idade e aos dezoito anos teve o dedo mínimo esquerdo mutilado por uma prensa industrial. É uma história não só pra comover e pra emocionar, mas também para fazer pensar. O que é capaz de te freiar? O que é capaz de te parar?

Nada parou nosso presidente.

Ele acreditou que era possível chegar à presidência e lutou pra isso. Com que meios o fez e se está correspondendo às expectativas de seus eleitores são assuntos que ficarão para um próximo post (garanto que não meu; se alguém se oferecer...). O que questiono diante de toda essa realidade é a necessidade de fazer firulas diante daquilo que já é trágico. Será que era mesmo necessário mostrar o pequeno Lula "salvando" a mãe das garras do pai e afirmando que "homem não bate em mulher", para deixar o pai estarrecido e sem palavras? Num outro momento, já adulto, Lula presencia o linchamento de um metalúrgico e, no filme, corre para salvá-lo.

Na vida real, segundo o livro, foi a mãe que salvou Lula de pegar uma surra do pai e, no caso do linchamento, o então metalúrgico não moveu um dedo: acreditava que a justiça estava sendo feita. A partir desses fatos, fico me perguntando pra que fazer um filme que não conta a verdade. Ou é pra mascarar alguma coisa ou pra enganar alguém. Acredito que seja pelos dois motivos. Por isso, chego a conclusão de que o filme é uma ficção.

Mas como uma biografia pode ser ficção?

Simples: ela é resumida, incompleta e, principalmente, e por esse motivo é ficção, é distorcida. É resumida porque aborda os fatos de forma superficial, tendo como escopo único mostrar "momentos" da vida de Lula, e não a vida dele como um todo. É incompleta pois ela termina num ponto totalmente sem fundamento: o diretor deixou de fora exatamente as campanhas eleitorais tão dramáticas das quais ele participou, ou seja, foi excluído o momento único em que ele lutou para converter-se no que é hoje. E  é ficção pois mostra o que quer, e não a realidade dos fatos.


Acredito que licenças poéticas são necessárias em certas horas, como no caso da surra que Lula "impediu" que a mãe tomasse. Talvez nosso presidente realmente acredite que homem não bate em mulher e nunca tenha batido. Aliás, não creio que ele tenha usado de violência com mulheres algum dia. As licenças poéticas dão emoção ao filme, dão a sensação de profecia, como no início, quando do nascimento dele, a mãe olha e diz: Você vai se chamar Luiz Inácio. Isso dá um toque fundo no coração de quem vê. E esse é o objetivo. Tocar. Sensibilizar.

Mas acho desnecessário e injusto com o telespectador mudar totalmente algo que aconteceu só para mostrar um homem que não existe: o perfeito. Se ele achava que estava sendo feita justiça no linchamento do colega, porque não mostrar isso no filme? O diretor tinha que mudar tudo e fazer -nos pensar: nossa, o presidente tem um senso de humanidade muito grande.

Na verdade o filme não mostra a vida de Lula. O filme mostra o Lula. E só. 

Com tudo isso, fico me perguntando realmente se quero assistir ao filme em janeiro, quando será lançado nacionalmente. Acho melhor deixar pra mais tarde, tipo setembro ou outubro. Mas não, não é pela falta de fidelidade da película ao livro. É porque não acho boa idéia começar a ver propaganda eleitoral no início do ano...



4 comentários:

Hamilton disse...

Muito bom o post Cécil!
Conseguiste ser imparcial expondo tua opinião, q é muito difícil! Realmente propaganda política no início do ano não dá! hahahahaha
Parabéns pelo Blog!
Beijãoo

Orlando Miranda disse...

Eu nao sei como alguem se presta a ler sobre alguem como o Lula...

Orlando Miranda disse...

Meu comentario foi censurado?
Vou te chamar de "CeciLLia" agora..

Ciça disse...

Oi maninho, eu não tinha visto o teu comentário, pois ele chegou no meu e-mail junto com o do Hamilton. Como o dele estava na frente não consegui ver o teu. Mas já tá aí.